Para além do Novo Ano
Em uma rua qualquer, de uma
cidade brasileira, onde há casas grandes, outras nem tão grandes assim e
algumas bem pequenas, o burburinho ecoa de todas elas com músicas de estilo
variados, conversas e crianças brincando na calçada põem a roda da vida a
girar. Todos estão aguardando a chegada do ano 2024. Em meio a isso tudo, na
frente de uma das casas, as crianças se juntaram para mostrar as suas
habilidades com skate e bicicletas. Bem penteadas, com roupas festiva e, a
maioria, de chinelinhos de dedo, indicava estarem bem à vontade. Em um certo
momento, começaram a conversar sobre o que aconteceria em poucos minutos e
diziam: - Na minha casa, vai ter bolo, na minha terá pastel, meus pais
vão estourar champanhe e por aí conduziam
o papo. Um dos meninos ficou calado; detive meu olhar nele; parecia ser o mais
humilde da turma. Magricela, com os olhos vivos, disse que veio passar o
Ano-Novo com os primos; trazia ele, no pescoço, um cordão com um crucifixo, semelhante
ao que eu tenho na minha casa, a única diferença eram as cores das pedrinhas em
volta da cruz; as dele era azuis e as minhas, vermelhas. Os outros meninos
também quiseram olhar o crucifixo com as pedrinhas. - Você tem uma joia
preciosa, disse-lhe; parabéns! O olhar do menino se transformou, ele riu, me
olhou, parecendo agradecer e se sentindo especial; para mim ele também se fez
especial, pois me escutou, parou para me dar atenção. A escuta hoje tem um
valor precioso, poucos sentem aquilo que nós sentimos, é a tal da empatia, que
muito se fala e pouco se vive. Estabelecemos ali, eu e aquele menino, um
diálogo de amizade, de afeto, onde o ponto de intercessão era o crucifixo.
Lembrei-me de uma passagem do livro Olhai os Lírios do Campo, quando de Eugênio
e Olívia na praça da cidade à noite conversam; ele, estudante de medicina, diz
que terá o mais alto prédio da cidade e será o homem mais rico do lugar e ela
lhe diz: - Olhe as casas grandes, veja também as casinhas pequenas...As
estrelas brilham igualmente para todas elas. Tudo isso me remeteu a um texto
trabalhado com os alunos sobre a ação de validar o ser humano no trabalho, na
profissão. Reflito, agora para além da sala de aula e então me vem, novamente,
o olhar do menino na noite do ano novo e o diálogo que tivemos. Validei a
presença dele ao dizer que tinha algo precioso com ele...Sim, vi no Cristo que
o enfeitava um valor imenso para mim também, pois enxerguei no olhar do menino
o olhar da humildade, da proteção e da validação da promessa de felicidade que
renasce a partir da chegada no ano de 2024 em todos os lares. Que neste ano o
nosso olhar seja para o lado mais bonito das pessoas, da presença e não da
falta, sejamos menos críticos às imperfeições alheias, oferecendo o melhor
sentimento que temos.
“A simplicidade procura
Deus, a pureza o abraça e frui.”