Você marcha, José?
José, para onde?
Saio pouco. Escrever. Falta-me o motivo, o cotidiano...Então vamos à rua, ainda que de carro, em busca da crônica perdida ???
A cidade ainda não é a minha melhor amiga, nem inimiga, talvez um porto de passagem...
Resolvo que observarei as pessoas, melhor, o que elas carregam consigo.
Opa! Lá vai uma senhora que eu reconheço de algum lugar! Não sei o nome dela. O que ela abraça? Ah! É uma capelinha de madeira da Nossa Senhora...Seria essa uma tábua de salvação? Ou conduz ela a fé ao outro ?
Um homem luta contra o vento com um papel escrito cartório...Olho para a feição dele... Será que comprou uma casa, saldou uma dívida? Casou-se? Nenhuma expressão, nenhuma pista ...Leva com ele a preocupação, a tensão ...
Muitas são as pessoas com sacolas.
Prossigamos. Sim, as sacolas de mercado são a maioria entre as pessoas. Carregam frutas, pães, água...Ou seria a gula, a fome, desejo de diminuir o estresse comum doce e a tentativa de , com a água, afogar as mágoas???
A passos largos, a mulher sai da farmácia com uma sacola. Leva ela remédios, ou algo como cura e alívio para o corpo e para alma?
Incontestável a certeza do que todos carregam...Ce lu lar!!! Ao pé do ouvido, falam sozinhos rua a fora, sorriem, fazem cara de espanto, discutem, escutam o som preferido e deligam o mundo sem incomodar e se incomodar com ninguém.
Retorno para casa e, ao passar pelas esquinas, com o vidro aberto do carro, bebo o vento frio aos goles. Sem sacola, trouxe comigo ainda mais interrogações sobre o que nos move pelas ruas.... A busca? A falta? O sentimento bom? A energia dos que caminham? O excesso? E nesse momento, ouço Drummond sussurrar ...
- Você marcha, José! José, para onde?
O portão da garagem abre, mas na minha frente passa um homem que leva um bebê em um carrinho...
Penso que a palavra final, diante dessa cena, seja ES-PE-RAN-ÇA.